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domingo, 24 de março de 2013

MARIA DE TODOS NÓS


Muitos fatos inéditos envolvem a escolha do novo Papa da Igreja Católica, eleito semana passada. Primeiro, ele é sul-americano. Segundo, é jesuíta. Terceiro, escolheu o nome Francisco. Eu tremi ao ouvir suas primeiras palavras no posto, pronunciadas no balcão da basílica de São Pedro. Esse homem de 76 anos é o pastor-mor de uma nação de mais de um bilhão de seguidores, espalhados pelos quatro cantos do mundo. A cidadania de cada um não se deve a uma certidão de nascimento, mas sim a uma decisão pessoal, uma confissão de fé. Que fé é essa? Para o mundo, a fé cristã. Para os católicos, a única e verdadeira fé cristã. Para a grande maioria dos evangélicos, uma aberração, a fachada de uma igreja apóstata.

Entrei na minha página da Facebook e expressei um desejo: que Deus guiasse o novo Papa. Assim como oramos por chefes de Estado, conforme a Bíblia nos orienta a fazer, levantei uma oração por esse homem, que assume um fardo inimaginável. Afinal, o seu jugo não será leve. Terá de lidar com a corrupção da cúria do Vaticano e enfrentar o problema de pedofilia entre sacerdotes.

Claro que fiquei um pouco triste quando disse que, entre as suas primeiras tarefas, ele estaria orando para Maria. Esse é o maior muro que divide as duas tradições — católica e protestante —, pelo menos na prática. Para mim, o muro principal é outro. O muro ao qual me refiro vai muito mais fundo e diz respeito a natureza da fé e da salvação (assunto para outro dia). Mas, em todo caso, no conceito evangélico quase universal, o problema com os católicos reside na idolatria de Maria e dos santos.

Não há dúvida de que temos as nossas idolatrias também. Mas, nessa corrida de idólatras, eles estão 1.500 anos na dianteira. E, embora haja razões históricas que levaram a isto, nada desculpa o que acabou sendo abraçado pela nação Católica Romana no que diz respeito à mãe de Jesus.

Só que Maria não é um palavrão. Nem, tampouco, uma entidade do mal.

Sabemos que nos séculos 5 e 6, o culto à divindade Diana foi incorporado pela Igreja de Roma, numa espécie de acomodação cultural. Com isso, as imagens da deusa foram mescladas à pessoa da mãe de Jesus. Assim como o culto ao Sol foi misturado à celebração do nascimento de Jesus — o que levou à criação da festa de Natal —, esse sincretismo criou muita confusão. O resultado é que essa fusão de paganismo e cristianismo gerou aberrações de doutrina.

E não é só isso. Na briga pela doutrina da divindade de Jesus, Maria recebeu o título de “mãe de Deus” e não “mãe de Jesus”. Como diz o ditado popular, a emenda ficou pior do que o soneto. Ao tentar afirmar a divindade de Jesus, acabaram mesclando a humanidade de Maria com o divino. Ao longo dos séculos, a natureza humana, irremediavelmente idólatra, levou a situação de mal a pior, até que surgiu a doutrina de Maria como “corredentora”. Heresia!

Mas Maria não é culpada de nada disso. A jovem judia se submeteu à vontade do Espírito Santo. De fato ela é “bendita entre as mulheres” (Lc 1.42). As gerações a chamaram, e devem continuar a chamá-la, de “bem-aventurada”, pois o Senhor fez grandes coisas em seu favor.

Não devemos adorá-la. Devemos, no entanto, admirar a mãe do nosso Senhor. Não devemos orar para ela, pois Cristo é o único intercessor entre nós e o Pai. Ele nos ensinou a orar diretamente para a primeira pessoa da Trindade. Não precisamos pedir a intercessão da mãe de Jesus, nem tampouco dos mártires de outrora. Podemos entrar na presença do Pai com ousadia, sem a necessidade de que alguém nos represente, senão aquele que é o caminho, Jesus, e que continua a fazer intercessão perpétua em nosso favor, junto com o Espírito Santo (Rm 8).

Não saúdo Maria. Ela faleceu e está com o seu Senhor. Não saúdo também qualquer outro que já tenha partido desta vida. Mas convém que a tenhamos em grande estima. Sua memória é uma inspiração. Não sou filho de Maria. Sou filho de Deus somente, e isso por causa de Jesus.

Com todas essas ressalvas, ouso dizer: Maria ainda é de todos nós.

Na paz,
+W

quinta-feira, 21 de março de 2013

UMA SEGUNDA REFORMA? AVALIANDO AS DECLARAÇÕES INICIAIS DO PAPA FRANCISCO


O novo líder da Igreja Católica, escolhido em um dia considerado por muitos “cabalístico” (13.03.13), já recebeu diversos comentários e reações aos seus primeiros pronunciamentos. Mesmo sendo muito cedo para qualquer análise ou opinião, observamos que todos os segmentos, os dos católicos, evangélicos e até os que se declaram sem religião, estão, por razões diversas, perplexos.

Aqueles com os quais a mídia fez coro, na expectativa da eleição de um Papa que fosse “progressista”, se espantaram com a posição do Dom Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco, com relação à união de gays, à questão do homossexualismo como “apenas” uma opção sexual e sobre o aborto. Ele é contra, ponto final! Na esfera política latino-americana, o distanciamento do Papa da tiete chavista Cristina Kirchner e alegados alinhamentos passados com a direita argentina, também fez com que este grupo ficasse não somente eriçado, como igualmente frustrado. Em adição, muitos “sem religião”, que dizem não ligar a mínima para o papado, têm comentado essas posições e declarações do Papa, franzindo o cenho em desaprovação ainda que meio veladamente.

Católicos se espantaram porque ele não colocou, de início, o envolvimento social comoprioridade máxima da Igreja. Em vez disso, contrariou a mensagem que tem soado renitentemente ao longo das quatro últimas décadas, especialmente em terras brasileiras, proclamada pelos politizados “teólogos da libertação”, ou da natimorta “teologia pública”. Ele aparentou priorizar as questões espirituais!

Exatamente por isso, no campo evangélico, chamou atenção a sua declaração de que a missão da Igreja é difundir a mensagem de Jesus Cristo pelo mundo. Na realidade, o Papa disse que se esse não for o foco principal, a Instituição da Igreja Católica Romana tende a se transformar em uma “ONG beneficente”, mas sem relevância maior à saúde espiritual das pessoas! Ei! Disseram alguns evangélicos – essa é a nossa mensagem!!

Bom, não é a primeira vez na história que um prelado católico reconhece que a Igreja tem estado equivocada em seus caminhos e mensagem. Já houve um monge agostiniano que, estudando a Bíblia, verificou que tinha que retornar às bases das Escrituras e reavivar a missão da igreja na proclamação do evangelho, libertando-a de penduricalhos humanos absorvidos através de séculos de tradição. Estes possuíam apenas características místicas, mas nenhuma contribuição espiritual e de vida que fosse real às pessoas. Assim foi disparado o movimento que ficou conhecido na história como a Reforma do Século 16, com as mensagens, escritos e ações de Martinho Lutero, em 1517. Lutero foi seguido por muitos outros reformadores, que se apegaram à Bíblia como regra de fé e prática.

Entendo, portanto, que não seria impossível uma “segunda reforma” dentro da Igreja Católica, se esta declaração inicial do Papa Francisco for levada a sério, por ele próprio e por seus seguidores. É importante lembrar, entretanto, que proclamar a mensagem de Jesus Cristo é algo bem abrangente e sério. Entre outras coisas que poderiam ser mencionada, a Igreja Católica precisaria se definir com coragem nessas cinco áreas cruciais:

1. Rejeitar apêndices aos livros inspirados das Escrituras. Ou seja, assumir lealdade apenas às Escrituras Sagradas, rejeitando os chamados livros apócrifos. Proclamar as palavras de Jesus, nesta área, é aceitar tão somente o que ele aceitou. Em Lucas 24.44, Jesus referiu-se às Escrituras disponíveis antes dos livros do Novo Testamento, como “A Lei de Moisés, Os Profetas e Os Salmos” – essa era exatamente a forma da época de se referir às Escrituras que formam o Antigo Testamento, em três divisões específicas (Pentateuco, livros históricos e proféticos e livros poéticos) compreendendo, no total, 39 livros. Representam os livros inspirados aceitos até hoje pelo cristianismo histórico, abraçado pelos evangélicos, bem como pelos Judeus de então e da atualidade. Ou seja, nenhuma menção ou aceitação dos livros apócrifos, não inspirados, que foram inseridos 400 anos depois de Cristo, quando Jerônimo editou a tradução em Latim da Bíblia – a Vulgata Latina[1]. Evangélicos e católicos concordam quanto aos 27 livros do Novo Testamento, mas essas adições à Palavra são responsáveis pela introdução de diversas doutrinas estranhas, que nunca foram ensinadas ou abraçadas por Jesus e pelos apóstolos. Proclamar a palavra de Jesus ao mundo começa com a aceitação das Escrituras do Antigo e Novo Testamento, e elas somente, como fonte de conhecimento religioso e regra de fé e prática.

2. Rejeitar a mediação de qualquer outro (ou outra) entre Deus e as Pessoas, que não seja o próprio Cristo. Não acatar a mediação de Maria, e muito menos a designação dela como co-redentora, lembrando que o ensino da palavra é o de que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Timóteo 2.5). Na realidade, a Igreja precisa obedecer até à própria Maria, que ensinou: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (João 2.5); e Ele nos diz: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao pai, senão por mim” (João 14.6). Foi um momento revelador da dificuldade que o Papa tem na aderência a essa mensagem da Bíblia, observar sua homilia pública (angelus) de 17.03.2013. Após falar várias coisas importantes e bíblicas sobre perdão e misericórdia divina, finalizou dizendo: “procuremos a intercessão de Maria”... Não é assim que irá proclamar a palavra de Jesus ao mundo, pois precisa apresentá-lo como único e exclusivo mediador; nosso advogado; aquele que pleiteia e defende a nossa causa perante o tribunal divino.

3. Rejeitar as imagens e o panteão de santos composto por vários personagens que também são alvo de adoração e devoção devidas somente a Cristo. Essa característica da Igreja Católica está relacionada com a utilização de imagens de escultura, como objeto de adoração e veneração; e também precisaria ser rejeitada. Ela contraria o segundo mandamento e desvia os olhos dos fiéis daquele que é o “autor e consumador da fé - Jesus” (Hebreus 12.2). Proclamar a palavra de Jesus ao mundo significa abandonar a prática espúria e humana da canonização de mortais comuns, pecadores como eu e você, em complexos, mas inúteis processos eclesiásticos, que não têm o poder de aferir ou atribuir poderes especiais a esses santos.

4. Rejeitar o ensino de que existe um estado pós-morte que proporciona uma “segunda chance” às pessoas. A doutrina do purgatório não tem base bíblica e surgiu exatamente dos livros conhecidos como apócrifos (em 2 Macabeus 12.45), sendo formalizada apenas nos Concílios de Lyon e Florença, em 1439. Mas Jesus e a Bíblia ensinam que existem apenas dois destinos que esperam as pessoas, após a morte: Estar na glória com o Criador – salvos pela graça infinita de Deus (Lucas 23.43 e Atos 15.11), ou na morte eterna (Mateus 23.33), como consequência dos nossos próprios pecados. Proclamar a palavra de Jesus ao mundo é alertar as pessoas sobre a inevitabilidade da morte eterna, pregando o evangelho do arrependimento e a boa nova da salvação através de Cristo, sem iludir os fiéis com falsos destinos.

5. Rejeitar os “mantras” religiosos, que são proferidos como se tivessem validade intrínseca, como fortalecimento progressivo pela repetibilidade. É o próprio Jesus que nos ensinou, em  Mateus 6.7: “... orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos”. É simplesmente incrível como a ficha não tem caído na Igreja Católica, ao longo dos séculos e, mesmo com uma declaração tão clara contra as repetições, da parte de Cristo, as rezas, rosários, novenas, sinais da cruz etc. são promovidos e apresentados como sinais de espiritualidade ou motivadores de ação divina àqueles que os repetem. Proclamar a palavra de Jesus ao mundo é dirigir-se ao Pai como ele ensina, em nome do próprio Jesus, no poder do Espírito Santo, abrindo o nosso coração perante o trono de graça (Filipenses 4.6).

Confesso que admiro a coragem deste homem, que, enquanto cardeal se pronunciou claramente contra alguns pecados aberrantes que estão destruindo a família e a sociedade. Peço a Deus que dê forças às nossas lideranças evangélicas, e a nós mesmos, para termos intrepidez no interpelar de governantes e da mídia, quando promovem leis e comportamentos que contradizem totalmente os princípios que Deus delineia em Sua Palavra. Estes sempre são os melhores para o bem da humanidade, na qual o povo de Deus (incluindo nossos filhos e netos) está inserido.

Mas quanto a uma possível Segunda Reforma, vou ficar cauteloso e com muitas dúvidas. No momento em que eu testemunhar mudanças, como as que apresentei acima, vou me animar, entusiasmar e bater palmas – talvez ela esteja em andamento! Até lá, entretanto, continuarei triste em ver tantos olhos e esperanças fixados em mitos, misticismo e na pessoa humana, em vez de no Deus único soberano, esperança de nossas vidas, que nos fala em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, que é real e eterno e não temporal como o Papa.

Solano Portela



[1] A Vulgata Latina (382 – 402 d.C.), tradução para o latim, da Bíblia, contém 73 livros (e não 66) além de adições de capítulos em alguns livros do Antigo Testamento, que não constam dos textos hebraicos, nem da Septuaginta (tradução para o Grego, do Antigo Testamento, realizada em torno de 280 a.C.). Estes livros adicionais são chamados de livros apócrifos (duvidosos, fabulosos, falsos). O próprio Jerônimo colocou notas de advertências, quanto à canonicidade e validade dessas adições, mas essa cautela foi suprimida nos séculos à frente. Sua aceitação como escritura canônica, no seio da Igreja Católica, foi formalizada pelo Concílio de Trento, em 1546 d.C. Desapareceu, assim, a compreensão de que aqueles livros estavam ali colocados por “seu valor histórico” ou devocional. É possível que se Jerônimo soubesse, que na posteridade seriam considerados parte integral da Bíblia, provavelmente não os teria incluído em seu trabalho.